terça-feira, 13 de novembro de 2007

Contos Moçambicanos

Saiu o numero 1 de "Oásis" - Jovens pela literatura, uma publicação regional propriedade da AEMO e financiada pela Cooperação Francesa.



A VIAGEM DO ADALFREDO, de Mapfuxa-tô-tala

Toda a vez que chega o Verão, como desta vez, o quarto do madala Adalfredo costuma não aguentar muito calor.
O sol do meio-dia, além de se derreter no zinco que protege a mesinha de cabeceira, penetra também por um enorme vazio, deixado por um zinco que sempre faltou. Adalfredo Faz de Tudo, de seu nome completo, chegara a ter o dinheiro para comprar aquele zinco, mas porque quisera apressar a inauguração da casa, optara em comprar bebidas no candongueiro.
Agora a casa sofre de dores de coluna, e parece-se com ele quando encurvado com a bengala.
É por causa desse sol do meio-dia, que Adalfredo estende-se horas e horas na sombra da bananeira. O calor aperta o passo, a sombra abandona-lhe, mas Adalfredo não sente a careca a transpirar.
Como que há-de sentir? Os olhos roubaram a mente e foram ficar lá, no infinito.
Cansado de ficar distante, a sua vista mergulhou-o na escuridão.
E a mente começou a levá-lo para viajar na boleia dos tempos em que a sua careca ainda curtia na juventude. Lembra da Maria Das Dores, a única mulher que já adorou de verdade, aqueles rapoios de fazer inveja, aquelas tetas ainda verdes que saltavam a corda, bastava Das Dores andar depressa. Lembra do dia do lobolo que ficou com dívida de duas capulanas de chita. Lembra de tudo, desde o dia que viu Das Dores passar pela esquina do Muchina, onde ele vendia dobrada. Mas, Maria Das Dores perdeu-se no tempo. Perdeu-se na noite em que Macuácua, aquele stapor, com braçadeira castanha-amarela e nariz impinado, arrombou a sua porta e indicou-o aos milícias:
- Ele é desempregado!
...


Joaquim

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